Sónia Grané

Esta temporada estreaste-te no Teatro Alla Scala em Milão com uma ópera de Sciarrino, tiveste a tua estreia enquanto Rainha da Noite na Staatsoper Berlin e agora estreias-te neste papel de Peri. Três desafios completamente diferentes - ou não?
Sim, definitivamente diferentes! Sciarrino é música contemporânea e quase “não cantada”, Mozart é clássico e a rainha da noite apresenta desafios muito próprios, como a coloratura e tessitura extremamente aguda. Schumann é romântico e apresenta linhas líricas maravilhosas.

Esta é a primeira vez que cantas Das Paradies und die Peri - já conhecias a obra antes? Quais foram as primeiras impressões?
Não, não conhecia a obra! A primeira coisa que me veio à cabeça quando ouvi uma gravação foi “mas como é que eu não tinha conhecimento de tal obra existir!”

A obra é muito raramente apresentada, o que achas que a torna especial?
Quando se ouve falar em oratória, Bach, Handel, Haydn e Mozart é o que vem à mente, não Schumann. No período romântico não foram escritas muitas oratórias e é precisamente o facto de ser uma das poucas desse período que a torna especial.

Tu fizeste os teus estudos superiores em Londres mas optaste por construir a tua carreira em Berlim. Estas cidades oferecem possibilidades muito diferentes para um cantor?
Sim, sem dúvida. Londres foi óptimo na minha formação, mas infelizmente em termos de trabalho tem um círculo de oportunidades muito fechado. Só tem dois teatros a tempo inteiro e depois três ou quatro companhias de ópera que funcionam maioritariamente no Verão. Berlim, tem 3 teatros a tempo inteiro que contam ainda com um Ensemble, ou seja, oferecem a possibilidade aos cantores de fazerem parte da equipa de solistas da casa. Também existem diversas pequenas companhias de ópera que oferecem aos cantores a possibilidade de experimentarem papéis em palco. Para além disso, o nível de vida em Berlim é bem mais barato que em Londres.

Tens algum conselho para algum/a jovem cantor/a que esteja a pensar seguir os seus estudos fora de Portugal?
Acho que o principal é tentarem ser fluentes em pelo menos 3 línguas para além do português. Para um cantor é indispensável, independentemente do país que escolham para seguir os seus estudos. Outro conselho é informarem-se bem qual o destino mais adequado ao ramo que pretendem seguir - barroco, italiano, alemão, um pouco de tudo...

 Sónia Grané a ensaiar Das Paradies und die Peri

Sónia Grané a ensaiar Das Paradies und die Peri

 

 

Isabel Vaz

Isabel Vaz (Lisboa, 1986) | Amesterdão, desde 2007
violoncelo

Violoncelista da Noord Nederlands Orkest (Holanda) e do Haarlem Piano Trio, colaboradora da NedPho (Amesterdão), Orquestra Gulbenkian e Orquestra Sinfónica Portuguesa. Estudou na Fundação Musical dos Amigos das Crianças (Lisboa), na Escola Superior de Música de Lisboa, na HAMU (Praga), no Conservatório de Amesterdão e na Manhattan School of Music (Nova Iorque), na Hochschule für Musik, Theater und Medien Hannover; foi premiada em concursos em Portugal e no estrangeiro; foi bolseira da Fundação Calouste.

[Arte no Tempo / Orquestra XXI] Ainda enquanto estudante da Escola Superior de Música de Lisboa, estiveste em Praga, no âmbito do programa Erasmus. Nessa altura já sabias que passarias os anos seguintes no estrangeiro? 
Enquanto criança e jovem nunca tive a oportunidade de viajar e conhecer outros ambientes e culturas. O Erasmus que fiz enquanto ainda estudava na ESML realizou o sonho que eu tinha de sair de Portugal e proporcionou-me a oportunidade única de passar uns meses noutro país, para além, claro, da possibilidade de continuar a aperfeiçoar-me no violoncelo com um excelente professor. Esta experiência abriu-me o apetite para futuras viagens/estadias prolongadas, ou não, lá fora.

alguns anos que deixaste Portugal. O que é que as cidades dos países por que tens passado te oferecem de diferente? 
Em Praga tive a sorte de, na altura, arranjar um quarto no bairro judeu, bastante central. Mal punha o pé fora da porta era logo rodeada pela beleza da arquitectura desta cidade, já que sempre tinha gostado de Arte Nova. Praga também é uma cidade com uma actividade musical bastante intensa. Eles têm particular orgulho nos seus compositores (Dvorak, Smetana, Martinu, etc) sendo que muitos dos concertos de lá incluem pelo menos uma obra de um compositor checo, o que me fazia sempre muito feliz.

Devo destacar Nova Iorque pela oferta cultural mais diversificada e intensa que alguma vez experienciei- os concertos de jazz, ou ópera, teatro, broadway, museus que frequentei tanto quanto possível. Recordo-me de uma noite em particular, em que andava a saltitar de bar em bar com música ao vivo e em que o bar seguinte tinha músicos melhores que os bares anteriores, já para não falar dos músicos no metro e na rua, de uma qualidade espantosa. Por outro lado, fiz lá bons amigos que me fizeram sentir em casa logo desde o início.

Amesterdão é a cidade do meu coração (a seguir a Lisboa). A Holanda foi um país que me recebeu muito bem. Apesar do choque cultural inicial ter sido considerável, rapidamente comecei a respeitar a abertura, a tolerância, e a frontalidade (facilmente confundida com má educação para alguém como eu, que vem de um país do sul) que caracterizam o povo holandês. Os amigos que lá fiz (em menor quantidade mas não em qualidade) são, creio, para toda a vida.

A partir dos 20 anos, foste por duas vezes distinguida no Prémio Jovens Músicos, na categoria de música de câmara. Anos mais tarde formaste um quarteto de cordas. Essas experiências do PJM foram determinantes ou já sabias que a música de câmara desempenharia um papel importante na tua carreira?
O gosto pela música de câmara já existia desde antes. A escola de música que frequentei dos 4 aos 17 anos (antiga Fundação Musical dos Amigos das Crianças, agora Academia Musical dos Amigos das Crianças) apostava fortemente nas classes de conjunto, o que possibilitou que desde muito cedo começasse a tocar com colegas- sempre um prazer enorme, comparado com o estudo solitário do instrumento numa sala. Adoro fazer música de câmara porque gosto de tocar e aprender com colegas, ao mesmo tempo que me permite uma certa expressão individual.

Recentemente ganhaste um lugar de violoncelista na Noord Nederlands Orkest. Voltar para Portugal não se encontra nos teus planos mais próximos, certo?
Neste momento as coisas estão a correr bem em Amesterdão, o que não quer dizer que nunca mais volte para o meu país. Na verdade gostava de começar a desenvolver um projecto artístico para breve, em Portugal, um festival de música de câmara.

Depois de Lisboa, estudaste na República Checa, nos Estados Unidos da América e na Holanda. Porque escolheste fixar-te na Holanda?
A decisão de ficar na Holanda deu-se porque percebi que as estruturas culturais e socio-económicas deste país me permitem levar a cabo o estilo de vida musical que sempre quis, de natureza variada. Não foi um percurso fácil, mas lá arranjei um trabalho part-time de orquestra, um ou dois concertos de música de câmara por mês, alguns alunos privados e ainda me resta algum tempo para vir tocar com a OrquestraXXI e desenvolver quaisquer outros projectos que me realizem a nível pessoal/profissional. Para além disso, é lá que vivo com um músico muito especial e "partner in crime" com quem me casei recentemente, o violinista brasileiro Eduardo Paredes. 

Se te fosse dada a oportunidade de melhorar um só aspecto do meio musical português, o que mudarias? 
Se pudesse mudar um aspecto do meio musical português, seria a criação de mais oportunidades para os músicos; gostava que os músicos que vivem em Portugal não tivessem uma carreira que passasse quase exclusivamente por tocar em orquestras e/ou dar aulas. Gostaria que houvesse uma rede maior de apoios às artes mas, para além disso, também uma programação mais original e atractiva para o público em geral, que o justificasse.

De que sentes mais saudades, estando fora de Portugal? 
Tenho saudades das pessoas, sejam eles família, amigos ou até desconhecidos que encontro no dia a dia; sinto-me bem sempre que cá venho. E do sol, e do calor! Muitas saudades de sair de casa sem que imediatamente me veja obrigada a contrair todos e cada músculo do meu corpo por causa do frio.

Qual foi a experiência mais importante que o estrangeiro te proporcionou?
Confesso que tenho dificuldade em escolher uma só experiência no estrangeiro que tenha sido realmente importante. Tudo foi importante porque me moldou naquilo que hoje sou. Se tivesse ficado em Portugal há 9 anos, tudo estaria bem à mesma, tenho a certeza, mas seria uma pessoa muito diferente daquela que sou hoje. 

Os músicos que conheci (professores, colegas de conservatório e, mais tarde, de quarteto e orquestra), assim como os amigos que fiz, mudaram a minha maneira de ver a música e a vida. Estou, no entanto, igualmente grata a todos os músicos que conheci, muito antes, em Portugal, pois se não fossem eles não teria tido a preparação e abertura que me permitiram desfrutar e aprender tanto lá fora.

Embora não tenhas tido disponibilidade para integrar todos os programas da Orquestra XXI, estás associada ao projecto desde a sua primeira digressão. Em que é que o projecto pode não ter correspondido às tuas expectativas? 
Na verdade, não mudava nada! Saí super satisfeita dos dois projectos em que participei, tanto do ponto de vista humano como artístico. Longa vida à Orquestra XXI, cujo principal mérito se prende, a meu ver, ainda mais com a manutenção do projecto (que não deve ser fácil) do que com o pontapé de saída inicial! Muitos parabéns!

Que projectos musicais tens para os tempos mais próximos?  
Por enquanto continuo a desenvolver o trabalho que tenho na orquestra, com o meu trio com piano e com os meus alunos. Está para breve a organização de um festival de música de câmara em Faro, que irá também ao encontro de outras artes (teatro e literatura) e promove um intercâmbio entre a Holanda e Portugal! Espero que corra tudo bem e que seja possível levar este projecto a bom porto, que ao realizar-se contará com a presença de músicos de qualidade excepcional e espectáculos muito especiais, programados com muito cuidado e atenção. Mais notícias, em breve.

Horácio Ferreira

Jovem Músico do Ano 2014 (Prémio Maestro Silva Pereira) e apontado como 'Rising Star' da temporada de 2016/17 da ECHO, o clarinetista Horácio Ferreira integra o projecto da Orquestra XXI desde a sua primeira digressão. É ele o solista da 5ª digressão da Orquestra XXI, que terá início no próximo dia 30 de Agosto e se estenderá até ao dia 4 de Setembro, cobrindo cinco regiões do país.

[Arte no Tempo/Orquestra XXI] Concluindo a Licenciatura, foste logo para a Escola Superior de Música Rainha Sofia (Madrid). O que te levou a procurar esta instituição, uma vez que não confere um grau académico?
Quando terminei a licenciatura não fui de imediato para Madrid, pois nesse ano, não abriram vagas de clarinete. Esta mudança só viria a acontecer em 2011. Eu tinha muita vontade de estudar com o Michel Arrignon, portanto nunca me preocupou o facto de não me ser atribuído um determinado grau académico. O meu foco era evoluir no clarinete com alguém que pudesse ajudar-me, mesmo que isso implicasse não estar numa instituição, ou que a mesma não me conferisse uma habilitação.


Em Setembro passado tornaste-te o Jovem Músico do Ano. Este verão recebeste a notícia de que serás “Rising Star” da European Concert Hall Organisation na temporada de 2016/17. Em que medida é que ter ido para Madrid pode ter contribuído para estas conquistas?
Ter ido para Madrid foi fundamental. Fui focado em melhorar e em dedicar-me ao clarinete para conseguir objectivos como estes. Felizmente, tive a sorte de os poder atingir. Lá tive a oportunidade de me apresentar inúmeras vezes em palco, nas mais diversas formações; isso, sem dúvida, foi um ponto chave para atingir as mais recentes conquistas. Estar rodeado de grandes nomes, em Madrid, ajudou-me imenso e creio que isso foi fundamental para a maneira como encaro hoje o clarinete e a música. Posso concluir que as diferentes vivências e o nível de alunos da Reina Sofia me ajudaram a abrir os horizontes no que diz respeito à maneira como vinha encarando a música até então.


Podes explicar sucintamente como funciona o programa ‘Rising Star’ e falar-nos do que tens planeado para essa temporada?
O programa ‘Rising Star’ consiste numa digressão europeia pelos auditórios membros desta organização, onde os diferentes artistas escolhidos actuam. Esta organização inclui as principais salas de concertos europeias, como o Barbican Hall em Londres, o Konzerthaus em Viena, ou a Philharmonie de Paris e eu fui nomeado pelas duas instituições portuguesas, a Casa da Música e a Fundação Calouste Gulbenkian. No meu caso, irei apresentar-me em recital com piano, onde pretendo divulgar alguma música portuguesa e tocar repertório “tradicional” para clarinete e piano. No entanto, ainda estou a trabalhar nesse campo…


Qual é a vivência mais importante pela qual imaginas que poderias não ter passado, caso tivesses permanecido em Portugal e prosseguido por cá a tua formação?
É difícil responder a esta questão. Ter ido para o estrangeiro foi uma decisão difícil, uma vez que tinha emprego em Portugal. No entanto, era muito novo e não me sentia ainda realizado no clarinete. Sentia-me capaz de fazer mais e precisava de alguém que me ajudasse a acreditar nas minhas capacidades. Penso que ter ido para fora foi uma experiência enriquecedora, pelas experiências e acima de tudo pelo contacto com grandes nomes da música… Se tivesse ficado em Portugal, não sei se iria lograr tudo aquilo que tem acontecido na minha carreira desde então.


Ao longo da tua formação, qual foi o ensinamento mais valioso que guardaste e a que recorres com maior frequência?
Várias vezes, o meu professor disse-me que tenho que ser eu mesmo e ser humilde, bem como respeitar ao máximo o texto que cada partitura apresenta. Recordo inúmeras vezes conversas como esta pois só assim poderei respeitar a música e ser respeitado.
Quais são as maiores diferenças que encontras entre o meio musical espanhol e o português? Em Espanha existe há muitos anos uma excelente orquestra de jovens, a JONDE. Cada região tem a sua própria orquestra jovem, o país tem muito mais orquestras profissionais e passam por lá os maiores artistas e orquestras mundiais ao longo de cada temporada. Há grandes agências de músicos e isso permite que exista um constante contacto com artistas de topo. Sinto também que não há grandes diferenças entre o nível de instrumentistas de cordas e de sopros. Se repararmos existem músicos espanhóis por toda a parte. Em Portugal felizmente têm aparecido bons projectos como a JOP e o EGO e, nos últimos anos, têm acontecido grandes feitos com músicos portugueses, no entanto em Espanha eles já vivem esta realidade há muito tempo. É meu desejo que este estímulo continue para que a nossa nacionalidade e o nosso país passem a ser mais respeitados.


Consideras que os países da península Ibérica estão irremediavelmente de costas voltadas um para o outro ou acreditas que um maior intercâmbio é uma forte possibilidade ainda durante as nossas vidas?
Não acredito que haja grandes mudanças nesse campo, uma vez que os espanhóis são muito nacionalistas. Exemplo disso é que imensos professores espanhóis vêm cá a Portugal dar masterclasses e o inverso é mais raro acontecer. Não existe grande intercâmbio de orquestras, portanto acredito que não aconteçam grandes mudanças.


Com a Orquestra XXI, vais apresentar a estreia em Portugal da versão para Clarinete e Orquestra de Luciano Berio da Primeira Sonata para Clarinete e Piano de J. Brahms. Já tocaste a sonata na sua versão original? Como encaras este desafio de apresentar uma peça de música de câmara num contexto concertante?
Esta sonata está muito ligada à minha pequena carreira de clarinetista, uma vez que já a toquei em público várias vezes. Esta oportunidade com a Orquestra XXI será fantástica pois, para além da admiração que tenho pelo projecto, existe uma grande energia positiva em torno desta orquestra. Há uma grande partilha de conhecimentos e creio que isso irá ser muito interessante de vivenciar junto dos músicos e do maestro. Por outro lado, não irei apresentar um concerto, este arranjo de Berio permite explorar diversas sonoridades e timbres num contexto conjunto o que me faz sentir inserido na orquestra e não como protagonista. Estou ansioso para que se iniciem os ensaios.


Tens colaborado com a Orquestra XXI em todos os programas que incluem clarinete e participaste no primeiro recital de solistas da mesma. O que consideras mais interessante neste projecto de jovens músicos portugueses residentes no estrangeiro?
Essencialmente, o que considero mais importante é a grande partilha de conceitos e vivências. É possível notar as diferentes características inerentes a cada “escola” de onde os músicos vêm. Transportar tudo isso para o palco, torna este projecto muito especial e único. No que diz respeito a música de câmara, foi muito enriquecedor poder partilhar o palco com músicos como a Adriana e o Dinis.